"Lídia"

"Primeiro foi uma espécie de impressão nos ombros e no pescoço."* Maria Teresa Horta sonhou; eu imaginei-a assim. Um dia voou para longe do marido, da rotina. Tornou-se nisto, num espasmo onírico. Não sei para onde foi, mas deve estar melhor do que antes. Ela começou a cheirar a rio e a árvores. Acabou por saltar da janela e despojar-se da vida como uma cobra se liberta da pele velha. Voou para longe, para onde pode ser sem ter de ser outra.
*In Contos, HORTA, Maria Teresa (e outros), Editorial Caminho, Lisboa, 1985, pág. 151
5 Comments:
Gosto que surjam textos e imagens novas no teu blog!
Não conhecia a Maria Teresa Horta. Gostei de muitas coisas que encontrei dela. Deixo aqui um poema dela:
Poema sobre a recusa
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.
Vivi, descobri-te por acaso. E que saudades. Vou ler-te com carinho e com o tempo que mereces, o que agora é praticamente impossível.
Já passaram alguns anos desde a última vez que nos vimos, mas a verdade é que nunca te esqueci. Temos que combinar um cafezinho para por a conversa em dia. Afinal, ambos crescemos, deve haver muito por (re)descobrir.
Um beijinho do tamanho do mundo,
Belinha
Vitinho, dizias de mim...mas tu não tens actualizado o blog! E estava eu aqui a preparar-me para ler algo bastante nutritivo... ai ai ai
Habita em nós um hábito
tão fácil de enraizar
habita em nós um golfejo
um mar...
Infelizmente há Lídias que nunca voam. Mesmo que ganhem asas, têm medo de voar.
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