Discurso sobre quartos vazios

Nascemos num caixão feito de seiva e raízes e húmus.
Começa a nossa fundação.
Temos paredes, telhado.
Pouco a pouco acrescentam-nos mobília, pó, carpetes e inutilidades.
Quando somos uma mansão, albergamos uma família. Enchem-nos de riscos de carvão e de brincadeiras pérfidas de crianças. Habituamo-nos aos passos pouco cadenciados daquela menina de cabelo preto e olhos azuis. Corre, saltita e deixa marcas.
Um dia acordamos e só temos quartos vazios. Olhamos para paredes brancas lapidadas pelo tempo e desejamos ser demolidos. As paredes já não fazem sentido, já não há crianças a pular nem avós a urinar pelas pernas abaixo, carcomidos pela idade. Só há quartos vazios. Só há morte e renascimento e dor esquecida.